Muito, mas muito tempo depois…

Há várias semanas eu abandonei vocês lá no final da trilha inca, ainda no meio da minha viagem. Eu sei, foi indelicado da minha parte, mas para me retratar vou terminar os relatos, mesmo com um atraso de quase um mês.

Não sei se isso faz sentido, principalmente depois que já voltei pra casa e revi quase todo mundo. Decidi retomar o blog, em primeiro lugar, por teimosia. Em segundo, porque os dias que se seguiram a Machu Picchu foram bonitos demais pra ficarem guardados só no meu computador.

Além disso, escrevendo de casa vou poder postar com mais calma e com mais fotos. A partir de amanhã tentarei publicar um post por dia, mas não esperem muita rigorosidade dessa programação.

Hasta luego!

Atualizando…

Depois de Cusco já passei por Arequipa, Nazca, Ica, Paracas e Lima, onde estou agora e de onde parto para São Paulo na segunda-feira. O problema é que por aqui os computadores estão bloqueados para descarregar fotos, ou seja, acho que só vou contar a vocês sobre o resto da viagem quando já estiver em São Paulo. De qualquer forma, não desisto. Mesmo com delay, prometo postar o resto da viagem (que foi simplesmente animal).

Bjocas e até breve

Trilha Inca: dia 4, chegando a Machu Picchu

No quarto e último dia de trilha inca acordamos às 3h30 da madrugada para tomar café às 4h e começar a caminhada às 4h30. Os porteadores, ou carregadores, têm que pegar um trem que sai bem cedo, por isso precisam desmontar todas as barracas de madrugada e disparar na nossa frente.

Para nós, turistas, são só mais duas ou três horas de caminhada até Machu Picchu, contando com uma fila de mais ou menos 1h num posto de controle no caminho.

Acordei super animada e ansiosa, assim como o resto do grupo. Começamos a caminhar ainda no escuro e, conforme o dia foi nascendo, o sol saiu. Foi incrível, dado que nos últimos dois dias tínhamos enfrentado neblina, frio e chuvas constantes. Meu maior medo era chegar em Machu Picchu com um dia feio, mas não, o quarto dia amanheceu quente e bonito.

Na madrugada, despedida dos porteadores e cozinheiros. Esses homens fazem o caminho de três a quatro vezes por mês e ganham menos que 200 soles por viagem...

Neblina se desfazendo e, lá em baixo, o rio Urubamba

Chegamos em Machu Picchu por volta das 7h, com uma neblina chata que foi se dissipando ao longo da manhã. Foi incrível ver de perto a cidade sagrada dos incas. Além das paisagens fantásticas, a história do lugar é fascinante e ver tudo isso de perto coloca você em contato com uma cultura tão importante e, ao mesmo tempo, tão pouco abordada nos cursos regulares do Brasil.

Em mim essa viagem aguçou uma curiosidade inédita pela história da América do Sul. Saio daqui muito impressionada e com a sensação de que outras viagens serão necessárias para satisfazer essa inquietação.

Grupo reunido na grande chegada! Mas ainda com neblina...

Com o tempo, o dia clereou e eu tirei a foto clássica e inevitável (confesso que tenho um orgulho fdp dessa foto!)

No meio da cidade perdida

Essa casinha com teto era um armazém. Obviamente, o teto é restaurado. Mas você não acha incrível que essas cidades incas ainda existam???

Templo do Sol. Repare na perfeição do encaixe dos blocos de pedra, comparados a uma construção comum em segundo plano.

Em Machu Picchu encontramos uma viscacha, espécie de coelho selvagem andino

Uma das vistas incríveis que se tem lá de cima

A ponte inca

Eu não me canso de fotografar essas montanhas nubladas... Mas como sempre digo, pessoalmente é muito melhor

Cidadezinha de Água Calientes, aos pés de Machu Picchu

O furioso Urubamba visto de baixo

No trem de volta. Foi difícil me despedir do pessoal depois de quatro dias juntos...

Trilha Inca: dia 3

Depois da “escalada” do segundo dia, eu esperava um terceiro dia tranquilo. É o dia mais longo de todos – são 10 km no primeiro, 12 km no segundo e 15 km no terceiro – mas como estaríamos descendo a maior parte do tempo, eu imaginava que seria facílimo. Não foi.

Começamos com uma subida puxada, mas não muito longa. Em seguida, andamos por um caminho ondulado, com subidas e descidas leves. Mais ou menos no meio do dia chegamos à descida infinita. Ao contrário do que se imagina, Machu Picchu não está num lugar muito alto em relação às cidades da região. Se no segundo dia caminhamos até os 4.200 m, agora teríamos que baixar até os 2.400 m, altitude da cidade perdida dos incas.

Descer pode até exigir menos do condicionamento físico do andarilho, mas garanto que o impacto muscular é mais forte. A maior parte do declive é coberta por escadas de pedra com degraus mais ou menos altos. Em várias partes é preciso dar pulinhos. Soma-se a isso o peso da mochila, que aumenta o impacto sobre os joelhos. Considere ainda que eu estava com as pernas muito doloridas por conta do segundo dia. Resultado: descer foi muito pior do que subir os 9 km no segundo dia.

Pra piorar tudo, o dia estava novamente chuvoso e as escadas de pedra estavam molhadas e escorregadias. Eu já tinha caído uma vez no segundo dia e quase caí muitas outras no terceiro. Ouvi relatos de pessoas que caíram quatro, cinco vezes. Nada grave, mas também nada que ajude a levantar o moral.

Conforme o dia foi passando, minha tolerância àquelas escadas chatas também foi se esgotando. Foi o único momento em que desejei acabar logo a trilha. Além das pernas, a sola dos meus pés doíam muito. Cada degrau alto era uma pancada de mais ou menos 90 kg (meu peso + mochila). Fui ficando de mau humor com as dores e cheguei ao acampamento, às 17h, já muito irritada. Pra mim esse foi, sim, o dia mais difícil. Se o segundo exigiu muito, pelo menos eu estava o tempo todo feliz e motivada. No terceiro dia, depois de quase 10 h de caminhada e mais de 5h descendo degraus, eu estava é de saco cheio.

Mas enfim, chegar ao acampamento e jantar foi reconfortante. Principalmente porque o grupo já estava super integrado e nossas refeições passaram a ser os grandes momentos da trilha. Além disso, eu sabia que só faltavam mais duas ou três horas de caminhada, no quarto dia, para chegar a Machu Picchu, o ápice da viagem.

No terceiro dia o cenário é marcado pela selva peruana

 

Um dos sítios arqueológicos que visitamos no caminho

Esperando o almoço com uma neblina fortíssima que dominou o dia

Treze caminhantes famintos

Incas e seus malditos degraus. Vai gostar de subir escada assim na...

Ponto alto do terceiro dia: no caminho encontrei llamas! E elas nos acompanharam por boa parte da descida

 

Trilha Inca: dia 2

Antes de vir para o Peru conversei com várias pessoas que já tinham feito a trilha inca e todas, sem exceção, me alertaram a respeito do segundo dia. É um dia praticamente inteiro de subida. São 9 km montanha acima em rampas ou longas escadarias de pedra. O objetivo é sair dos 3.000 m e chegar a aproximadamente 4.200 m de altitude, no local conhecido como a “abra de Warmiwañusca” ou “el paso de la mujer muerta”. Depois deste feito, teríamos que descer mais 3 km até o acampamento.

Eu já disse isso, mas sou completamente sedentária. Cheguei a fazer um mês de academia antes da trilha, mas não tenho certeza de que isso ajudou muito. Depois de ouvir várias pessoas falando do quão terrível era o segundo dia, fiquei com medo de não conseguir terminá-lo.

Foi difícil? Sim. Extremamente difícil. Mas perfeitamente possível. Na verdade, confesso que eu imaginava algo pior do que foi. Pelos relatos que ouvi, achei que eu fosse ter grandes problemas. Pensei que teria que parar várias vezes, pensei que talvez eu não aguentaria a mochila, pensei que estouraria um joelho, pensei tudo de ruim que poderia acontecer, mas não foi nada disso.

Andei devagar, beeeeem devagar, porque sabia que se eu forçasse o ritmo não aguentaria o dia inteiro. Tentei não focar no final da subida, mantive minha mente ocupada com outras coisas e fui subindo cada degrau como se fosse o último. Demorei, fiquei na lanterninha e fui a penúltima do grupo a chegar aos 4.200 m. Fiz a subida em seis horas (o normal é 5h), parando apenas uma vez por cerca de 20 min.

Assim, no meu ritmo tartaruga, cheguei lá em cima me sentindo super bem. Exausta, mas bem. Venci o segundo dia. Com dores em todos os músculos da perna, terminei a parte mais difícil da trilha e fui dormir cansada e feliz.

Começo da trilha com chuva no segundo dia

Escadarias de pedra infinitas

Lá em cima, os pontinhos azuis são pessoas

Aos 4.215 m, depois de 6h de subida

Tivemos um dia nublado e chuvoso, mas com paisagens lindas como essa

Só no Peru eu fui encontrar a kantuta, flor-símbolo da Bolívia por levar as mesmas cores da bandeira daquele país: vermelho, amarelo e verde

Trilha Inca: dia 1

Pontualmente às 6h da manhã da última terça-feira, 24, o ônibus parou em frente ao hostel chamando por mim. Junto com mais 13 pessoas de diferentes nacionalidades, eu seria levada até o início da trilha inca, um dos caminhos construídos pelos “filhos do sol” para interligar as cidades do império. Não existe apenas um caminho inca, mas sim vários. O que eu fiz é conhecido pelos turistas como “trilha inca clássica”, um percurso de aproximadamente 45 km que dura três dias e meio e leva até Machu Picchu, a cidade sagrada dos incas.

Para entrar na trilha todos os andarilhos precisam passar por um posto de controle onde são checados documentos e tickets de ingresso. Este é também o momento em que os guias se apresentam e o grupo de trekking se conhece. Eu era a única brasileira entre seis argentinos, duas suecas, um peruano, uma coreana e dois chilenos.

Grupo reunido pela primeira vez

O primeiro dia é tranquilo. Andamos por apenas 5h em caminhos geralmente planos ou com subidas leves. Tivemos a sorte de começar com um dia bem quente e sem chuva, embora o verão seja época de temporais constantes nessa região. Havia muitas paradas para descanso ou para explicações acerca dos sítios arqueológicos do caminho, o que também ajudava a recobrar o fôlego.

Lindas paisagens no primeiro dia

Estes aí são os porteadores que levam todas as barracas, a comida, os utensílios de cozinha, as mesas, cadeiras, o gás etc. Cada um pode carregar até 20 kg nas costas. E eles andam MUITO mais rápido que o grupo.

Sapato especial para trekking do porteador. Os caras são heróis mesmo.

No primeiro dia encontramos também muitos animais de carga. Há famílias que vivem ao longo do caminho e que usam os cavalos ou burricos como meio de transporte.

Nessa região há muitos cactos e na pontinha de um deles cresce a tuna, essa fruta colorida muito apreciada pelos peruanos.

Parada para o primeiro almoço

Ajudando os porteadores a descascarem as favas

 

Uma das várias pontes do caminho

Primeira subida mais forte, no final do primeiro dia. Lá embaixo se vê a trilha ao pé da montanha.

Acampamento da primeira noite, em Wayllabamba, a aproximadamente 3.000 m de altitude

Chegamos ao acampamento antes das 17h. Dividi a barraca com a coreana Yun, que também está viajando sozinha pela América do Sul e, na Coreia, estuda para ser astronauta. Como todos os dias, tomamos um chá da tarde às 17h30 e jantamos por volta das 19h, para dormir logo depois.

Neste dia se sente pela primeira vez o real peso de caminhar com a mochila nas costas e confesso que não foi nada fácil. A agência nos dá a opção de contratar um carregador – ou porteador, como se diz por aqui -, mas para mim levar a mochila fazia parte do desafio.

Deixei a maior parte da bagagem guardada no hostel e coloquei na mochila apenas o necessário, mas um pequeno contratempo me atrapalhou bastante. Eu tinha um excelente saco de dormir, quente e leve, que esqueci no ônibus de Uyuni a La Paz. Consequentemente tive que alugar um saco de dormir da agência, um trambolho volumoso e muito mais pesado que o meu. Além disso, cada um tem que levar seu “colchonete”, um isolante térmico que não pesa muito, mas que junto com o saco de dormir acrescentou quilos inesperados à minha mochila.

Pra piorar, durante a primeira noite choveu e entrou um pouco de água na barraca, encharcando justo o meu saco de dormir. Na manhã seguinte ele devia pesar uns bons 3 kg.

Eu sabia que o segundo dia seria puxado, por isso acatei à sugestão de um dos colegas e paguei uma gorjeta para o porteador levar só o meu saco de dormir. Foi a melhor coisa que fiz. Sei que 3 kg parecem pouco, mas isso somado ao peso das minhas coisas faz uma baita diferença. Tirar esse peso das costas foi um GRANDE negócio.

A caminho de Machu Picchu

A primeira vez que li sobre a trilha inca que leva a Machu Picchu foi numa reportagem da falecida (e ótima) revista Caminhos da Terra. Eu devia ter entre 13 e 15 anos. Desde então, coloquei Machu Picchu e a trilha no topo da minha lista de viagens dos sonhos. Agora, finalmente, chegou o grande momento.

Estou em Cusco e amanhã às 6h (9h no Brasil) parto para a caminhada de três dias que leva à cidade sagrada dos incas. Desnecessário dizer que estou tremendo de ansiedade. Talvez não consiga nem dormir (mentira). Para mim, é o grande momento de toda essa viagem, o real motivo pelo qual saí de casa duas semanas atrás.

Mochila arrumada, banho tomado (o último pelos próximos três dias), câmera carregada e espírito preparado. Agora é só dormir e esperar pelo sol – ou pela chuva. Torçam por mim e por um lindo dia na sexta de manhã, quando piso pela primeira vez em Machu Picchu.

Até lá!

Beijos

Titicaca do lado peruano

Como já disse em outro post, Copacabana foi minha última escala na Bolívia. De lá parti para a cidade de Puno, do lado peruano do Titicaca. O lago é dividido pelos dois países e pertence 60% ao Peru e 40% à Bolívia.

Puno em si não tem muitos atrativos, mas é de lá que saem os passeios para as ilhas flutuantes de Uros, lar de uma comunidade que vive literalmente no meio do lago. Conta a história que quando o império Tiwanaku dominou a região do Titicaca os habitantes de Uros fugiram e desenvolveram uma técnica para construir ilhas artificiais a partir de uma planta chamada totora, cuja raiz não afunda na água. Eles unem blocos de raízes e os cobrem com o caule da planta, construindo plataformas flutuantes de cerca de 3 m de espessura.

Há mais de 60 ilhas nessa área do lago, todas muito semelhantes, formando uma espécie de cidade flutuante. Na ilha que eu visitei moravam quatro famílias. A totora é a base da vida dessas pessoas. Ela serve para construir ilhas, casas, barcos e até para alimentar a comunidade.

Uma das ilhas flutuantes

Essa é a totora, abundante nesta parte do lago

Caule comestível da totora. É fibroso e não tem gosto de nada.

O lugar é lindo e conhecer as ilhas é extremamente interessante, mas confesso que há tempos não me sentia tão constrangida. Embora as pessoas realmente vivam ali naquelas ilhas, a presença maciça de turistas já transformou a visita a Uros num espetáculo. A impressão que me deu é que nosso guia havia ensaiado todos os passos com as famílias e o que nós assistimos foi puro teatro.

Não quero desmerecer as famílias de Uros e sei da importância financeira que o turismo tem para eles, mas a forma como a visita é conduzida é muito artificial. Os moradores ficam ali expostos como bonecos enquanto a turistada tira foto. De repente o guia diz: “eles vão cantar uma música agora”, e os moradores se juntam e cantam. De quando em quando as crianças falam coisas engraçadinhas em uníssono ou cantam novas canções em castelhano ou em aymara. No final, o guia faz um discurso comovente e você se sente o pior dos seres humanos se não comprar o artesanato dos moradores. Enfim, me senti mal, constrangida, envergonhada. Poderia ter sido muito mais natural.

Moradores cantam para os turistas

Por dentro de uma casa de totora

Fogão a lenha usado na ilha. Idêntico ao usado pela Janet para cozinhar o chairo em La Paz, lembra?

Barco de totora

De Uros fomos visitar a ilha Taquile, a 2h de barco. Essa é uma ilha real, não flutuante, onde os moradores falam quéchua, vivem da agricultura e usam roupas de origem espanhola. O mesmo teatro se repetiu. Mais constrangimento, mais artesanato. O que realmente valeu à pena é que essa foi a ilha mais bonita que visitei no Titicaca e, com certeza, uma das mais bonitas que visitei na vida.

A ilha Taquile é toda cortada por caminhos como este. Não existem carros nem animais de carga, só se anda a pé.

Plantações de grãos e tubérculos dominam a paisagem

Mais uma vez, as praias coloridas do Titicaca

Todos os garotos da ilham usam este traje

Dança que simboliza o trabalho agrícola

O chapéu branco e vermelho significa que ele é solteiro. Todos os homens da ilha costuram e cada desenho bordado no cinto tem um significado.

Na ilha inteira é possível sentir o cheiro da muña, um tipo de menta com um toque de eucalipto. Eles usam para fazer chá ou simplesmente para esfregar nas mãos e inalar. Dizem que ajuda com a altitude.

Ultimate eating: de cabeça na comida boliviana

Se você já esteve na Bolívia ou na feira da Kantuta, em São Paulo, deve ter feito “argh” quando leu o título desde post. Mais de uma vez, amigos me advertiram a respeito da comida boliviana. Ouvi relatos tenebrosos. Mas a despeito disso, desde que saí de casa decidi que iria a fundo nos pratos nacionais, não importava quantos piriris isso me custasse.

Não sei se eram minhas expectativas que estavam muito baixas ou se meus amigos são muito exigentes, mas a experiência não foi tão ruim quanto eu imaginava. Apesar do excesso de frituras e da aparência suspeita de alguns pratos, com certeza o país tem seus bons momentos gastronômicos, como os já citados chairo paceño e o mondongo.

Uma dessas refeições memoráveis eu fiz em Potosí, a cidade das minas. Ali, o prato típico é a Ck’alapurka, uma sopa grossa à base de batata, farinha e ají (pimenta), com pedacinhos de carne picada. Para manter a sopa aquecida, coloca-se uma pedrinha vulcânica em altíssima temperatura dentro da cumbuca. A pedra faz toda a sopa borbulhar violentamente e o prato chega à mesa parecendo um vulcão em erupção. Extremamente legal.

Ck'alapurka borbulhante

Olha a pedrinha aí

O sabor, eu confesso, não tinha nada de especial, mas também não era ruim. Pelo menos agora posso dizer que, sim, eu como até sopa de pedra. E a conta é pra chorar de alegria: sopa e limonada por Bls. 17 ou aproximadamente R$ 5.

Outra experiência interessante foi almoçar no restaurante La Coca, em La Paz, num bairro charmosinho chamado Sopocachi. O menú da casa tem como um dos ingredientes centrais, é claro, a folha de coca, usada de formas bem criativas. Como entrada pedi almôndegas de batata doce com molho de licor de coca. O prato principal foi uma massa ao pesto de coca com tiras de frango e queijo. Avaliação: divino! O licor e o pesto tinham um sabor suave que em nada lembrava o amargor das folhas de coca quando mascadas.

Entrada: almôndegas de batata doce com licor de coca. A foto ficou muito prejudicada pela luz verde do teto.

Prato principal: espagueti ao pesto de coca com tiras de frango

Mas claro que nem tudo são flores nessa minha decisão de provar a comida típica. Confesso que comecei devagar, indo a restaurantes legais e aparentemente limpinhos, mas depois de um período de adaptação resolvi me aproximar mais dos nativos.

Ainda em La Paz me deparei por acaso – e por sorte – com uma feira de rua, onde conheci o chicharrón, prato famoso em Cochabamba. Pelo pouco que pesquisei, vi que chicharrón pode significar outras coisas em outros países, mas o que eu comi levava carne de porco ou de frango frita, mote (o milho branco gigante cozido), chuño (um tipo de batata desidratada) e llajwa (aquele molho de pimenta onipresente).

Havia uma longa fileira de barraquinhas de chicharrón, cada uma com pouco mais de dois metros de largura, onde cabia uma vendedora, uma enorme panela de óleo, vários potes com ingredientes, algumas estantes com bebidas e mais quatro ou cinco clientes espremidos num cantinho. Me enfiei onde parecia haver espaço e fiz o pedido. Desconfiada de que a carne de porco tinha mais osso que carne, fiquei com o chicharrón de frango. Talheres? Não. Este prato se come com a mão mesmo.

O chicharrón. Essa coisinha escura em baixo do frango é o chuño, batata desidratada.

O frango estava bom, como tudo o que é frito, mas achei o chuño sem gosto e o milho branco… digamos que não somos bons amigos. Definitivamente.

Outro prato encontrado em qualquer esquina por aqui é o pollo broaster, traduzido por mim simplesmente como frango frito empanado. Este eu provei em Sucre e tinha um quê de almoço-peão: frango, arroz, macarrão e batata frita. Equilibrado, né?

Pollo broaster

Eu não poderia deixar de falar, é claro, das saltenhas. Primeiro uma curiosidade: na Bolívia as saltenhas são servidas pela manhã, e apenas pela manhã. Saí uma noite toda feliz achando que iria jantar saltenhas, mas não encontrei uma sequer na cidade toda. Mesmo as casas especializadas só servem até meio-dia.

A que provei foi indicada por uma moradora de La Paz como a melhor da cidade. Realmente estava ótima, mas confesso que a saltenha do Dom Carlos, na Kantuta, ainda é a minha favorita.

Saltenha. Todas elas têm essa dobrinha do meio propositalmente queimada.

Caudalosa por dentro. A minha era de porco. Deliciosa, mas bem apimentada.

Eu poderia escrever um livro sobre tudo o que comi na Bolívia e ainda assim não daria conta de retratar a diversidade de ingredientes e preparos que encontrei por aqui. Em cada esquina há um ambulante vendendo algo completamente novo para mim. Em cada mercado ou feira, uma infinidade de surpresas. Fico com a sensação de que apenas esbarrei num país muito mais complexo do que eu poderia imaginar e vou embora já com vontade de voltar.

Ficam algumas fotos da feira de La Paz, uma ótima síntese do que é a Bolívia.

Em primeiro plano, os ajíes, pimentas andinas. Mais ao fundo, vários tipos de massa vendidas a granel.

Essa coisa branca enorme aqui em primeiro plano, acredite, é uma lula

Seguindo a tradição, refrigerar pra quê? É só peixe mesmo.