Viagem sem fim: de Santa Cruz a Sucre

Há basicamente três tipos de ônibus de viagem aqui na Bolívia, em ordem crescente de conforto: normal, semi-cama e cama. Também vi por aí um leito, mas não sei a diferença dele para o cama. Como quero experimentar todos, resolvi começar pelo normal e, num ato impensado, escolhi essa categoria justamente para a viagem de 16h entre Santa Cruz e Sucre.

Logo que entrei no ônibus percebi que não seria fácil. Já imaginava que não haveria ar condicionado, apesar dos mais de 30º C lá fora às 16h. Para piorar, os bancos eram aqueles de carmurça (veludo?), que esquentam mais que cobertor. O estofado estava velho e esburacado e nos cantinhos do banco, no chão, havia lixo. Lixo mesmo: colherinha de sorvete, papel de bala, caroço de ameixa e por aí vai. Pra abstrair, resolvi ajeitar minha cortininha e fui engolida por uma nuvem de poeira. Coisa de desenho. Nem imaginava que um ônibus pudesse acumular aquela quantidade de pó. Achei melhor não ficar mexendo muito mais nas coisas e me acomodei como pude.

Foi então que começaram a chegar os outros passageiros. Acho que eu era a única brasileira entre famílias inteiras de bolivianos e muitas, muitas crianças (aliás, criança aqui vem no atacado; há dezenas delas em todo lugar). Logo atrás de mim sentou um casal com um bebê que chorou por praticamente 1/3 do tempo da viagem. Por sorte, tenho um sono pesadíssimo que mais uma vez se mostrou eficiente.

Por um lado, eu me sentiria menos ET e menos observada num carro com mais turistas. Por outro, isso tornou toda a experiência muito mais autêntica. Exemplo, nos ônibus cama e semi-cama os vidros são vedados por conta do ar condicionado, e eu não teria a oportunidade de comprar quitutes que são vendidos aos berros pela janela em todos os pedágios.

A falta do para-choque é só uma das diferenças entre o ônibus "normal", em primeiro plano, e o "cama", ao fundo.

Eu mencionei que a viagem leva 16h? Se você olhar no mapa verá que a distância entre Santa Cruz e Sucre nem é tão grande assim pra justificar essa demora. Mas pode debitar as horas extras na conta da estrada. No começo até me surpreendi com a qualidade do asfalto, mas foi só até entrar nas montanhas.

A partir dali, a via é uma pista de mão dupla que mais parece uma mão única compartilhada por carros nos dois sentidos. As ultrapassagens são espremidas à beira do penhasco e sem reduzir muito a velocidade, pra dar mais emoção. Em muitos trechos não existe asfalto e o sacolejo faz as vezes de massagem terapêutica. Pra meu azar, só desci na primeira parada, porque na segunda eu acordei com o ônibus já saindo. Ou seja, das 16h passei pelo menos 11h sem tirar a bunda da cadeira.

Não preciso dizer que foi dolorido. Cheguei com as costas, pernas e pescoço moídos, mas cheguei. Só isso já foi um alívio. Foi bonito também. O pôr do sol nas montanhas é fantástico e algumas paisagens de encostas de pedra altíssimas são de tirar o fôlego.

Fim do dia na estrada entre Santa Cruz e Sucre

Bjos sofridos

4 respostas em “Viagem sem fim: de Santa Cruz a Sucre

    • É um riacho. A estrada não dá pra ver nas fotos. Era muito estreita e eu sentei no fundo do ônibus.

  1. Olá!!

    Você por acaso se lembra da empresa de ônibus que fez esse trajeto Santa Cruz – Sucre?
    Ou se foi na rodoviária direto?

    Obrigada!!

    • Oi, Ludmyla. Não lembro qual foi a empresa… Fui direto na rodoviária. Lembro que foi muito fácil comprar a passagem, mesmo com a rodoviária lotada. Se não me engano, tinha várias opções de empresas e horários.

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